segunda-feira, 4 de julho de 2011

Referendando...Popper, Karl R. O Mito do Contexto. 4º cap.

O capítulo 4º do livro trata da ciência: problemas, objetivos e responsabilidades.
Popper começa o capítulo comentando a história intelectual do homem, considerando que desde os primórdios, esteve marcada pelo preconceito e pelo dogma, provando ser o homem, um animal predominantemente ideológico.
Através de Bacon o determinismo teológico foi substituído pelo determinismo científico. Com sua teoria, ele inspirou cientistas e filósofos enunciando os méritos supremos da observação e o vício da especulação teorizante.
Bacon afirmava que: “Devemos purificar as nossas mentes de todos os preconceitos, de todas as idéias preconcebidas, de todas as teorias- de todas essas superstições ou ídolos, que a religião, a filosofia, a educação ou a tradição possam ter transmitido.” (p 111)
O método de Bacon propunha observação e indução, afirmando que a mente deveria estar completamente liberta de preconceitos, ou seja, de conhecimentos prévios; uma vez que acreditava que através das teorias as observações seriam interpretadas erroneamente.
Popper elenca uma série de críticas ao dogma anti teórico de Bacon, entre os quais afirma que:
- É ingênuo acreditar que é possível retirar de nossas mentes todas as teorias preconcebidas;
- Uma mente sem nenhuma teoria prévia, seria simplesmente uma mente vazia;
Toda observação tem uma componente teórica.             
Popper dá uma atenção especial ao que chama “problema de Bacon”, segundo o qual: “os preconceitos não nos deixam aprender com a experiência: formam uma barreira intransponível ao avanço da ciência por meio da observação e da experiência. (p 114)
Para “resolver” o problema de Bacon, Popper propõe uma solução que compreende dois passos.
O critério da refutabilidade aparece como primeiro passo para a resolução do problema de Bacon, afirmando que uma teoria só pode ser considerada ciência, se for passível de ser testada e refutada.
O segundo passo sugere que devem ser realizadas tentativas sérias de testar uma teoria, inclusive através de teorias concorrentes.
Enfim, Popper afirma que: “A função decisiva da observação e da experiência em ciência é a crítica.” (p 118)
Para ele a moderna visão da ciência, que concebe as teorias científicas como essencialmente conjecturais, é o resultado da revolução einsteiniana que destruiu a teoria da gravidade de Newton, que era até então considerada verdade absoluta e imutável, gozando de maior êxito entre as teorias.“A teoria de Einstein destruiu, pois, a autoridade da de Newton, e com ela algo de importância ainda maior – o autoritarismo da ciência.” (p 119)
De modo provocativo Popper resume a sua palestra enumerando as coisas controversas que tem discutido em suas teses. Dentre as quais:
Sua afirmação de que todo conhecimento científico é hipotético e conjectural, enaltecendo os erros e lembrando da importância de aprender através deles; inclusive ousando cometê-los Desde que seja possível examiná-los sistematicamente.
Trata da objetividade científica como abordagem crítica, lembrando que as teorias por nós defendidas, certamente serão refutadas por outros, sugerindo que isso deveria nos encorajar a refutar as nossas próprias teorias. Desse modo, Popper afirma que é o outro que ao testar a nossa teoria, trata de legitimá-la.
Na segunda parte da sua palestra, o autor discute sobre os problemas e o seu papel na ciência.
A ciência surge através de teorias que respondem a determinados problemas, sejam eles práticos ou teóricos. Assim sendo, podemos afirmar que as teorias surgem de problemas, e não de observações. Ora, Popper ilustra essa declaração lembrando que: “para observarmos devemos ter uma questão em mente, suscetível de ser resolvida através da observação.” (p 126)
Para compreender um problema, é necessário experimentá-lo de todas as formas possíveis, tendo em vista que quanto mais fracassarmos na solução de um problema, mas conheceremos a sua totalidade.
Para Popper existe uma tensão entre a grandiosidade do nosso conhecimento, que é impressionante e vasto, e a nossa ignorância sem limites, que fica evidente a cada passo que damos em direção ao conhecimento e percebemos a imensidão do que desconhecemos. É através dessa tensão que é gerado o avanço do conhecimento.
Desse modo, resume a sua concepção global do método científico em três palavras: problemas, teorias e críticas. Ou seja, é através dos problemas que surgem as teorias, que são legitimadas através das críticas.
Para concluir sua palestra, Popper trata do tema das responsabilidades dos cientistas, abordando as tarefas que devem ser cumpridas como parte da competição pacífica que existe entre as ciências.
A primeira e mais importante tarefa é fazer um bom trabalho em seu campo específico.
A segunda tarefa é evitar o perigo de uma especialização estreita: “Um cientista que não tenha um interesse ardente pelos outros campos da ciência, excluí-se da participação nessa auto libertação através do conhecimento, que é a tarefa cultural da ciência.”(p 139/140) .
Enfim, a terceira tarefa, que acredita ser uma das maiores responsabilidades dos cientistas, que é ajudar a outros a entender o “seu” campo de trabalho, reduzindo o jargão científico para se fazer compreender.
Só dessa forma as idéias científicas terão alcance e serão reconhecidas.
Analisar a discussão de Popper nos leva a uma série de questionamentos importantes: qual o peso do contexto no surgimento das teorias científicas? A que interesses atendem? Existe neutralidade? É possível não ter um “pré” conceito acerca do que estamos pesquisando? Até onde a minha história de vida e os meus valores poderão interferir na observação e andamento da minha pesquisa?
Não acredito que o contexto é um mito. Ainda que possamos nos isentar de impor nossa opinião, e conduzir uma investigação séria, criteriosa, crítica e refutável; certamente a minha motivação para a escolha do tema, estará dentro de um contexto do qual construí o meu conhecimento e é ele que me levará a fazer determinadas escolhas.
Afinal, se voltarmos ao início do texto veremos Popper afirmar que: “O homem, podemos afirmar, parece ser menos um animal racional do que um animal ideológico.” (p 109)
Não somos tábulas vazias, temos uma história de descobertas inseridas em um contexto e isso faz toda a diferença nas nossas escolhas pessoais e científicas, porque elas determinam o que queremos investigar e em que desejamos trabalhar.
O Mito do Contexto é um livro fundamental para servir de base para uma investigação científica. Através dele podemos questionar as nossas escolhas e motivações, definição do tema e investigação, atentando para as responsabilidades necessárias para conduzir um trabalho científico, compreendendo aspectos como neutralidade, refutabilidade, objetividade, entre outros. Afinal, para elaborar um trabalho científico é crucial compreender ciência e racionalidade, a partir de uma análise séria da teoria do conhecimento.








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