domingo, 6 de maio de 2012

Referendando... Andery, Maria Amália Pie Abib (2007). Para compreender a ciência: uma perspectiva histórica. Garamond Universitária. 1ª Parte.




Compreender o contexto grego em que surgiram as reflexões científicas dos seus pensadores é fundamental para entender a ciência através de uma perspectiva histórica. A primeira parte do livro traz essa discussão apresentando os principais aspectos que fizeram da cultura grega um marco, capaz de influenciar diferentes culturas ao longo dos séculos. 
Foi no período homérico que as bases da civilização se desenvolveram. No período em que prevaleceu a estrutura palaciana a escrita tinha um papel fundamental na vida econômica e sócia, contudo, quando essa estrutura caiu, a escrita que até então era utilizada na fiscalização e controle, acaba por desaparecer. Com o surgimento da polis veio uma série de transformações que possibilitou o reaparecimento da escrita, agora com novas funções, dentre as quais a divulgação de aspectos da vida social e política. Toda a noção de função social passa por modificações e a tomada de decisões passa a considerar tanto o caráter humano quanto o público e os homens passam a controlar melhor seus destinos. Contudo, as leis eram promulgadas e exercidas por quem conhecia a tradição e os mitos, uma vez que a religião controlava completamente as atividades humanas.
Na economia mercantil a própria dinâmica social que restringia a noção de cidadania que excluía mulheres, escravos e estrangeiros tornou-se objeto de reflexão. Um ponto de destaque interessante é o papel das mulheres gregas. Levando em conta a diferença entre trabalho manual e trabalho intelectual, tendo em vista que foi esse modelo de organização que permitiu o surgimento da filosofia na Grécia, na medida em que pôde liberar os homens para o trabalho intelectual, uma vez que os escravos e as mulheres se encarregavam do trabalho manual.
Desse modo, pode-se dizer que o desenvolvimento da polis foi fundamental para o nascimento do pensamento racional. A partir do desenvolvimento mercantil a idéia do mito começa então a ser rompida. A natureza passa a ser investigada como fonte de respostas. 
Os filósofos gregos elaboraram explicações sobre a origem do universo de formas diversas, apesar disso, iniciaram uma nova forma de ver o mundo a partir de suas concepções.
Para melhor compreender o contexto em que surgiu essa filosofia, é preciso considerar as guerras e as diferenças culturais entre as cidades gregas.
Quando Esparta ganha a Guerra do Peloponeso, não destrói a cultura ateniense, apenas trata de institucionalizar esse conhecimento.
Entre tantos pensadores, alguns tiveram destaque em suas proposições.
Criticados pelo relativismo, os sofistas  elaboraram um pensamento que ultrapassou o seu tempo.A ênfase no indivíduo que molda e é moldado pela cultura e pelas condições sociais é uma característica do sofismo. Defendiam que as instituições da polis eram construções humanas relativas a uma cultura. Desse modo, a centralidade no homem e o relativismo marcam o pensamento sofista.
Sócrates tinha a idéia inovadora de que o conhecimento não poderia ser simplesmente transmitido como regras previamente estabelecidas, o indivíduo só alcançaria o conhecimento através de si mesmo. Reconhecer a própria ignorância seria o principal caminho para o saber. Não era no conhecimento da natureza que ele estava interessado, mas no conhecimento dos homens e da sociedade. Ele introduziu a questão dos conceitos universais e da indução. A partir de então, o homem passa a ser objeto de conhecimento rigoroso.
Platão foi professor de Aristóteles. Para ele, o conhecimento deveria possibilitar o governo de uma sociedade justa. Seu argumento era de que existiam dois mundos: o mundo da idéias e o mundo das coisas sensíveis. O verdadeiro saber viria do mundo das idéias.
Aristóteles diferia de Platão no seu entendimento acerca da política, enquanto em Platão era considerada objeto de conhecimento e ação, em Aristóteles a política restringia-se a objeto de estudo. Seu pensamento serviu de base para muitos outros pensadores, sobretudo em razão de seu rigoroso método de chegar ao conhecimento e sem sombra de dúvidas, o mais próximo do pensamento racional que o mundo grego foi capaz de elaborar. Ele considerava fundamental na busca desse conhecimento usar tanto a indução como a dedução. A indução seria um estágio inicial, enquanto a dedução seria a via de raciocínio mais importante.
Toda a filosofia cristã foi fundamentada nos escritos de Platão e Aristóteles, que foram traduzidos pelos árabes. Agostinho e São Tomás de Aquino quando conhecem esse material passam a fundamentar a teoria do cristianismo. Pode-se dizer, portanto, que Platão e Aristóteles são os fundadores da nossa cultura, eles tinham um método para a produção do conhecimento. Ambos, assim como Sócrates, eram contrários aos sofistas, sobretudo ao relativismo. Acreditavam que o conhecimento tinha uma função social. A formação de cidadãos passou a ser encarada como uma tarefa fundamental com vistas à transformação, ou mesmo a manutenção da sociedade.
Pode-se dizer que todo conhecimento vem da discussão sobre o divino, ainda que para criticá-lo (Marx foi uma exceção, com seu materialismo histórico.)  
Enfim, vale fazer uma reflexão de como a influência da cultura grega está presente em nossa cultura. É interessante perceber como o cordel tem características semelhantes à cultura grega, na medida em que também conta aventuras reais. O serviço militar é outro exemplo disso: seguimos a mesma lógica do serviço militar espartano, entre outros aspectos, temos a mesma lógica da obrigatoriedade do alistamento. Assim como os controles que a nossa escola mantém vem da lógica espartana.
O livro é fundamental para quem faz mestrado ou doutorado na medida em que compreender a História que influencia nossa cultura é fundamental para ter uma visão crítica de nossas instituições e então aventurar-se a compreender e fazer ciência.
 Por Aparecida Cunha

Nenhum comentário:

Postar um comentário